Uma breve viagem pela história da Horta Comunitária Cidade Nova

Desde 2019, espaço que antes era um terreno baldio usado para descarte, foi transformado em uma Horta Comunitária e segue transformando as realidades do território.

Foz do Iguaçu é uma cidade de contrastes. Na parte norte a Entidade Binacional se faz presente e, ligada por uma supercarretera (rodovia) e corredor turístico, cheio de hotéis, atrações artificiais no melhor estilo Las Vegas com shopping centers e Duty Frees está, no extremo sul, as Grandiosas Cataratas do Iguaçu. A cidade se move 7 dias por semana, na escala 6x1 e com horas extras na alta temporada sempre pronta para atender os turistas e empresários que por aqui passam.

Afastados dos olhos dos visitantes estão os bairros de Foz. Grande parte ocupados durante a crise de moradias gerada pelo alto fluxo migratório que a construção da Entidade trouxe para a cidade, como Morumbi, Três Lagoas, e o Jd. Itaipu na Zona Norte. Outros, loteados pela prefeitura, como é o caso do Cidade Nova, para tentar suprir o catastrófico déficit habitacional que continua até os dias de hoje e segue aumentando, com a demanda cada vez maior por trabalhadores que constroem as incontáveis mega-obras acontecendo em diversos cantos da nossa querida Fossa.

Em toda cidade, e principalmente na Zona Norte, fazem parte da paisagem urbana as mais diversas árvores frutíferas trazidas de todos os cantos do país, bananeiras, pés de mandioca, quiabo, tomate, que estão espalhadas em cada pequeno quintal e terrenos baldios que se pode encontrar, herança do passado desses trabalhadores e familiares do ciclo de Itaipu, muitos moradores do campo que vieram para a fronteira durante o milagre modernista dos anos 70 e 80 e cá continuam até hoje. Sem esquecer, é claro, dos primeiros ocupantes (não-indígenas) da região, que eram em sua grande maioria pequenos agricultores.

Quem um dia viveu na roça, sente a falta do contato com a terra, de ter ervas frescas para cozinhar, a sombra das árvores frutíferas, da troca entre vizinhos e amizades queridas e do compartilhar da produção de seus cultivos. Quem já nasceu na cidade pode não sentir falta dos pés descalços na terra, mas que isso faz uma diferença danada na nossa vida, isso faz!

No bairro Cidade Nova as hortas não são algo recente. Acontece há décadas movimentações comunitárias, frente a violências e ao descaso do poder público, que buscam ocupar terrenos baldios e produzir alimentos orgânicos, promovendo o intercâmbio produtivo e a aproximação dos moradores do bairro. A ação sempre foi direta para quem sente na pele o abandono municipal e a falta de oportunidades.

A história da Horta Comunitária Cidade Nova começou anos atrás. Geminada em 2019 com o nome de Arapy, com apoio de um edital da UNILA, e posteriormente apoiado por um projeto de roda de mediação de leituras da mesma universidade, o projeto da horta comunitária contou com a participação de moradores e principalmente as crianças da região, onde se realizavam diversas atividades culturais de capoeira, contação de histórias, confecção de bonecas abayomi, grafite, confecção de cartoneras, eventos de música e artes, além do plantio de uma horta-mandala e de mudas de árvores. Esse projeto foi encabeçado pela estudante de Antropologia Ediane Hirle, sempre em diálogo com os moradores do Cidade Nova e demais bairros no entorno.

Veio a COVID, todo mundo se trancou em casa e o projeto acabou com o tempo. Em 2021 o espaço foi ocupado novamente, com atividades de limpeza do terreno, manejo das árvores e alguns plantios, mas foi só em 2022 com a reabertura da vida social que o projeto retomou o fôlego necessário para um trabalho semanal e contínuo no terreno ao lado do Banco de Alimentos.

Mutirão no Arapy em 2021. Fonte: Instagram Horta Comunitária Cidade Nova

O espaço foi sucessivamente expandido e cultivado baseado na metodologia de Sistemas Agroflorestais (SAFs), com uma diversidade de plantas como bananeiras, mandioca, feijão, abóbora, milho, pimentas, batata doce, maracujá, abacate, tomates, pitangas, acerolas, fruta do conde, manga, espinheira santa, angico, jabuticaba entre outras. Os SAFs são alternativas integrativas que combinam o plantio de árvores nativas, culturas agrícolas, hortaliças, plantas medicinais e até pecuária em um mesmo espaço. Através de uma visão holística e sistêmica e da diversidade de espécies, essa variedade de organismos proporciona maior harmônia e complementaridade, gerando benefícios para todos os envolvidos.

Além disso, os SAFs proporcionam sustentabilidade ambiental, social e emocional. Sem o uso de pesticidas e agrotóxicos durante as fases do plantio, sem abonos (adubos) químicos e em completo contato e simbiose com a natureza. Os espaços agroflorestais são florestas plantadas pelas pessoas pensando no bem-estar de todos e na proteção inter espécies.

Tamanho é o poder das agroflorestas, são capazes de produzirem um microclima específico em cima de suas áreas, o que ajuda na proteção ambiental, além de reter água, diminuindo a rega e automatizando os processos, em um ambiente onde a cooperação é a força motora da vida. Isso é trabalhar lado a lado com a natureza.

Com o trabalho semanal foi possível produzir materiais de identificação de plantas e o Primeiro Festival da Colheita, em parceria com a Fundação Cultural e a Prefeitura de Foz, em 30 de Abril de 2022, afirmando a construção da Horta Comunitária Cidade Nova também como um importante espaço de lazer, socialização e cultura na periferia de Foz do Iguaçu, com participação de coletivos e artistas independentes da UNILA e dos bairros ao entorno. O espaço desabrocha como um terreno fértil para a integração latinoamericana, troca de experiências entre estudantes e moradores e severa resistência quotidiana.

Em 2023 a horta contava com voluntários fixos que semanalmente vão até o espaço observar, plantar e fazer o manejo necessário, controlando aproximadamente 70% do espaço, regenerando o solo e focando em cultivo de plantas medicinais e PANCS (plantas alimentícias não convencionais, como a capuchinha), assim como o reflorestamento com árvores nativas.

  Divulgação do 1º Festival da Semente, em 22 de Abril de 2023.

No eixo formativo, a Horta Comunitária facilitou a realização de diversas oficinas, como a Primeira Oficina de Temperos que reuniu mulheres e mães do bairro com o objetivo de ensinar e aprender em uma experiência de troca de conhecimentos comunitários. Além disso, também foram ofertadas oficinas de manejo agroflorestal, manejo e manutenção de ferramentas, oficina de compostagem, cultivo de plantas medicinais, construção de um herbário com as plantas da horta, fermentação natural, e muitos outros encontros promovidos por voluntários e coletivos parceiros, com o propósito de (re)conectar-nos com a terra, compartilhar saberes e colocar nossos corpos em movimento. 

A horta regularmente também promove mutirões de plantio e manejo comunitário, fazendo um recorrido pelo espaço, apresentando a horta para jardineiros de primeira viagem e dividindo as tarefas em coletivo. Dessa forma, todos podem participar e aprender de forma colaborativa e de acordo com suas capacidades e interesses. É importante dizer também que em todas oficinas e mutirões é feito uma olla comunitária, com cultivos da horta, doações do banco de alimentos e o que cada um puder contribuir. As refeições são preparadas com muito amor e carinho por quem estiver disposte e compartilhado entre todes.

Segundo festival da colheita na Horta Comunitária. Dezembro de de 2025

A Horta Comunitária caminha também a passos largos  para se consolidar como um espaço educativo. Além das crianças dos bairros que sempre aparecem brincar, compartilhar e colocar a mão na terra, a horta frequentemente recebe visitantes de instituições de ensino da cidade, como alunos de diversos cursos da UNILA (Arquitetura, Serviço Social, Desenvolvimento Rural, Biologia…), estudantes do colégio Flávio Warken do 3º ano de formação de docentes também estiveram presentes em Setembro de 2024 na Horta e na Biblioteca do Cidade Nova, conhecendo de perto as iniciativas populares e as vivências do bairro, aproximando-se das histórias de luta na defesa dos territórios e promoção de uma cidadania atuante, combativa e horizontal, contribuindo para a formação crítica des futuros docentes.

O projeto mais recente e ainda em curso da Horta Comunitária é a PRIMEIRA ESCOLA POPULAR DE AGROFLORESTA, um processo de formação em agrofloresta e agricultura sintrópica, desde uma perspectiva de educação ambiental popular e ecologia de saberes. Apesar da agrofloresta ser o presente-futuro na produção de alimentos e relação com a natureza, ainda são pouco acessíveis formações populares e a iniciativa da Horta Comunitária vem na contramão do sistema capitalista e liberal, compartilhando saberes ancestrais e científicos de forma gratuita e participativa, com encontros temáticos abordando desde a preparação do solo, plantio de linhas agroflorestais, manejo, compostagem e criação de cercas vivas. Os encontros ocorrem a cada 15 dias na própria Horta Comunitária, alinhados com as necessidades do espaço, os próximos vão acontecer no dia 06 de Junho, compostagem e sistemas de adubação, e 20 de Junho, com cercas vivas e a comemoração do solstício.

Visita de estudantes do Colégio Estadual Flávio Warken. Setembro de 2024

Para concluir esta extensa síntese da história da Horta Comunitária Cidade Nova e das atividades desenvolvidas, cabe ressaltar a recente implantação de canteiros para famílias do bairro. Assim, quem não tiver espaço em casa, pode plantar suas ervas e hortaliças em canteiros específicos, fortalecendo ainda mais a presença de moradores dos bairros e os aproximando das práticas de agricultura integrativas e regenerativas.

Dessa forma, fica explícito o quão importante é a existência desse lindo espaço. Como já vimos, a Horta Comunitária não é simplesmente um espaço de plantio ocasional de culturas - o que já seria muito bom, dada a atual realidade que nos engole - mas um terreno baldio que era usado para descarte incorreto de lixo que se transformou em um centro de trabalho comunitário, centro cultural e de troca de ideias e experiências, espaço formativo nas diversas artes e ofícios e claro, uma horta comunitária com árvores nativas. O Cidade Nova, assim como outros bairros da Zona Norte, foram planejados e concebidos como periferias marginais no entorno de Foz, onde se concentra a mão de obra que abastece o setor turístico e hoteleiro da cidade. Os bairros ficam esquecidos e abandonados pelo poder público, sem opções de lazer e cultura. É importante disputar espaços institucionais e votar de vez em quando, quando há, em candidatos progressistas e ocupar comitês públicos. Mas, tão importante quanto, é fortalecer espaços autônomos e comunitários que são construídos por nossas amizades e familiares, que atuam diretamente para a melhoria da vida, que compartilham conhecimento, acolhimento, comida e forças para seguir na luta. Sejamos nós os tecedores de redes de cultura e resistência frente a máquina de moer que hemos de destruir!

Viva a Horta Comunitária Cidade Nova!

 

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