Em meio aos desafios enfrentados diariamente pelas comunidades periféricas, surgem iniciativas que mostram a força da organização popular e da união entre moradores, estudantes e instituições públicas. Um desses exemplos aconteceu na Cidade Nova, em Foz do Iguaçu, quando a Biblioteca Comunitária CNI se transformou em um verdadeiro espaço de construção coletiva, aprendizado e participação social.
O projeto “Intervenção Urbana na Cidade Nova – Elaboração do Projeto Mobiliário Interior da Biblioteca CNI”, desenvolvido em 2013, nasceu da parceria entre a Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), o Programa de Bolsa de Desenvolvimento Institucional e Envolvimento Comunitário (PROBIEC) e a comunidade do Cidade Nova Informa (CNI).
A proposta foi coordenada pela professora doutora e arquiteta Andréia da Silva Moassab, contando também com a participação do estudante de Arquitetura e Urbanismo Fernando Teruho Kawaji, responsável pela elaboração do relatório do projeto. O objetivo principal era desenvolver o mobiliário interno da Biblioteca Comunitária CNI de forma participativa, envolvendo diretamente os moradores nas decisões e na execução das ideias.
Mas o projeto foi muito além da organização física de uma biblioteca.
Desde o início, a iniciativa buscou construir algo coletivo, onde o conhecimento técnico universitário dialogasse com a realidade da comunidade. A metodologia adotada valorizava o chamado “Projeto Participativo”, permitindo que moradores, bolsistas, professores e colaboradores compartilhassem ideias, experiências e soluções para os desafios encontrados no espaço da biblioteca.
Os primeiros meses foram dedicados a estudos, pesquisas e levantamentos sobre bibliotecas comunitárias, mobiliário e conforto ambiental. A partir disso, começaram a surgir os primeiros esboços e pré-projetos do espaço interno da Biblioteca CNI. Porém, conforme o trabalho avançava, a equipe percebeu que a realidade da comunidade exigia adaptações constantes.
As limitações orçamentárias, a chegada de novos móveis por doações e a necessidade de aproveitar o mobiliário já existente fizeram com que o projeto fosse reformulado diversas vezes. Em vez de um modelo rígido e definitivo, surgiu a ideia de um espaço flexível, capaz de crescer e se adaptar conforme as necessidades da biblioteca e da comunidade.
Essa mudança mostrou algo importante: projetos comunitários precisam ouvir a realidade das pessoas.
Ao longo do desenvolvimento, a participação dos moradores se tornou cada vez mais presente. O espaço da biblioteca passou a ser pensado não apenas como um local para guardar livros, mas como um ambiente de convivência, aprendizado e fortalecimento cultural do bairro Cidade Nova.
Outro momento marcante aconteceu em abril de 2013, com a realização da Oficina do Tijolo Solo-Cimento. A atividade reuniu estudantes da UNILA e moradores da comunidade em uma experiência prática de construção sustentável. Durante a oficina, os participantes aprenderam técnicas simples, econômicas e acessíveis para produção de tijolos ecológicos.
Mais do que produzir materiais de construção, a oficina teve como foco a troca de conhecimentos e a integração entre universidade e comunidade. O próprio relatório destaca que o aprendizado coletivo foi mais importante do que o resultado físico da atividade.
As fotografias presentes no documento revelam um cenário de participação intensa, com moradores e estudantes trabalhando juntos em campo aberto, preparando o solo, produzindo os tijolos e compartilhando experiências. As imagens mostram um verdadeiro mutirão comunitário, marcado pelo envolvimento popular e pelo espírito colaborativo.
O projeto também registrou detalhadamente a realidade da Biblioteca Comunitária CNI naquele período. O levantamento catalogou armários, estantes, mesas, cadeiras, escrivaninhas e diversos móveis existentes no espaço. As fotografias revelam uma biblioteca construída a partir de doações e do esforço coletivo da comunidade.
Mesmo com limitações estruturais, o local demonstrava sua importância social. Livros organizados em estantes improvisadas, mesas compartilhadas e materiais acumulados mostravam o esforço da comunidade em manter vivo um espaço de acesso ao conhecimento dentro do bairro.
A conclusão do relatório deixa evidente que o projeto ultrapassou os limites acadêmicos. O vínculo criado entre universidade e comunidade gerou relações humanas profundas, baseadas em amizade, confiança e compromisso social.
O autor destaca que, mesmo após o encerramento formal do vínculo com o PROBIEC, o trabalho junto à Cidade Nova continuaria acontecendo. Isso porque o processo de construção coletiva criou laços permanentes entre os participantes e fortaleceu o compromisso com a biblioteca e com a comunidade local.
Mais de uma década depois, o projeto continua representando um importante registro histórico da luta comunitária pela educação, cultura e organização popular na Cidade Nova.
A Biblioteca Comunitária CNI não foi apenas um espaço físico reorganizado. Ela se tornou símbolo daquilo que pode acontecer quando a comunidade participa das decisões, quando a universidade se aproxima da realidade popular e quando o conhecimento deixa de ser algo distante para se transformar em ferramenta de transformação social.
Em tempos em que muitos espaços comunitários enfrentam dificuldades para sobreviver, revisitar iniciativas como essa é também reconhecer o valor da memória coletiva, da participação popular e do trabalho construído por muitas mãos.
O projeto desenvolvido em 2013 permanece como prova de que pequenas ações locais podem gerar impactos duradouros, fortalecendo identidades, criando oportunidades e mostrando que educação e cultura também nascem dentro das comunidades.
Documento utilizado como referência histórica: “Intervenção Urbana na Cidade Nova – Elaboração do Projeto Mobiliário Interior da Biblioteca CNI”, de Fernando Teruho Kawaji, UNILA/PROBIEC, 2013.